Month: abril 2016 (page 1 of 3)

Colunas sobre infância e maternidade

Confira aqui as  últimas colunas, artigos e podcasts de Priscila Frehse.


 

Mulheres do mundo, uni-vos!

Apelos pelo fim da guerra entre mães  e sobre os mitos de uma maternidade perfeita circularam especialmente no último mês nas redes sociais (textos publicados originalmente em fevereiro de 2014 – leia aqui e aqui ). Seguindo no tema e, novamente, tentando aliviar a barra das mães culpadas desse mundo afora, resolvi trazer hoje, novamente, um tema abordado pelo psicanalista inglês D. Winnicott.

Com toda sua sensibilidade clínica, Winnicott sabia que poucas coisas irritam mais uma mãe que o excesso de sentimentalismo que envolve o cuidado infantil. E assim ele trata de um tema que me parece especialmente delicado e importante: o ódio que a mãe sente pelo seu bebê. O psicanalista discute com profundidade as questões que envolvem o ódio materno, mas também traz exemplos corriqueiros. Quando por exemplo, a criança recusa a comida tão boa que a mãe preparou e faz com que ela duvide de si mesma, mas com a tia ele come tudo. Ou quando, depois de uma manhã horrível, a mãe sai com o bebê e ele sorri para um estranho, que diz: “Não é uma gracinha?”

Winnicott sabia muito bem que o excesso de sentimentalismo pode encobrir afetos negativos que a mãe não consegue dar conta de sentir e assumir. A “máscara da ternura”, para parafrasear o psicanalista húngaro Sándor Ferenczi, muitas vezes encobre uma lógica de culpa e desautorização, sobre o que já falei um pouco nas colunas anteriores.

Mas, não custa lembrar, poder assumir os próprios afetos negativos não significa se autorizar a colocá-los em prática, atuá-los. Em termos ideais, diz Winnicott, sobretudo no início, “a mãe deve ser capaz de tolerar seu sentimento de ódio contra o bebê sem fazer nada a respeito.” Ela não pode expressá-lo para ele nem ter muito medo da sua própria reação. O problema é que isso só funciona mais ou menos bem, uma parcela de agressividade não elaborada sempre escapa. Mas a capacidade de tolerância ao próprio ódio e aos próprios insucessos aumenta na medida em que é possível falar sobre eles, colocá-los em debate.

É por essa via que leio as discussões dos últimos dias nos “blogs maternos”. Cada mãe, à sua maneira e ao seu estilo, tentando dar conta das ambivalências que implicam essa aventura que é a maternidade. Melhor ainda quando vêm com um pouco de humor, signo de que algo dessa agressividade humana, demasiadamente humana, pode ganhar outros sentidos.

“Mulheres de todo o mundo, uni-vos”! Essa frase adaptada do Manifesto Comunista não me sai da cabeça desde que comecei a escrever a coluna. Talvez pela certeza de que o debate entre mães pode se tornar ainda mais produtivo se reconhecermos nossas precariedades, nossos ódios, nossas inseguranças, nossas rivalidades, mas que, enfim, estamos todas no mesmo barco.

Pois é, somos de uma geração que já não se contenta em repetir passo a passo o que nos foi prescrito. Queremos – e precisamos – nos inventar como mães, como mulheres. Melhor se pudermos fazer isso juntas, falando sem pudores também dos acertos, dos sucessos, do que vai bem. E digo sem pudores porque desde menininhas vamos aprendendo que feminino e maternidade se referem à fragilidade, à passividade, à dificuldade, ao sacrifício, com conotação quase sempre negativa. Freud, com a limitação do linguajar de sua época, faz uma teoria que nos permite perceber o sofrimento imaginário que tudo isso gera. (Aliás, tenho comigo que a psicanálise é uma teoria para dar conta do feminino).  O difícil é que aqui não se trata de nenhum aprendizado, de nenhum resgate de algo que esteja pronto. É algo que precisa ser construído. E, se aprendo algo com a psicanálise até hoje, e nisso Winnicott me ajuda muito, é que não se constrói nada sozinho. Até a próxima!

Texto publicado originalmente em:

http://www.roteirobabycuritiba.com.br/site/todas-no-mesmo-barco/

Realismo mágico

JOHN VIZCAINO / REUTERS

No último 17 de abril de 2014, quando a morte de Gabriel García Márquez nos deixou mais órfãos, me deparei na internet com a seguinte preciosidade:

Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” Gabriel García Márquez, em Amor nos tempos de Cólera

Acho de uma sabedoria tremenda e muito afinado com os desafios que permeiam o trabalho com crianças e adolescentes. Pois, para que a criança possa “se parir” e parir algo de si para o outro é preciso de um espaço, da criação de um espaço que lhes permita apreender a realidade à sua maneira.

Todas as teorias fabulosas elaboradas pelas crianças sobre as origens dos bebês, sobre o mundo, sobre a morte e sobre a vida, que sempre nos surpreendem, são parte desse processo de criação da realidade e recriação de si, numa espécie de realismo mágico que será a fonte da capacidade de acreditar e de viver uma vida que tenha um sentido próprio. Não por acaso rimos quando nos deparamos essas invencionices infantis. É prazeroso e divertido reencontrar essa capacidade criativa que em nós está perdida ou transformada.

Parto dessa frase de um de meus escritores preferidos, para retomar, mais uma vez, o tema da culpabilização, mas com destaque em outro aspecto de sua manifestação: o excesso de culpa e de preocupação pode acabar fazendo com que a mãe “se cole” à criança, criando teorias e explicações ali onde a criança poderia ter um espaço para, a partir de usa própria realidade mágica, criar e recriar a si mesma. Explico: vamos supor que a criança esteja com uma dificuldade em aprender o português na escola. Um pai muito culpado, que acredite plenamente que tudo o que acontece de bom e de ruim com a criança é culpa dele, tenderá a achar uma explicação baseada em si mesmo, sem levar em conta os sentidos que a criança pode dar para essa dificuldade. Por exemplo: “Eu quando era criança tinha exatamente a mesma dificuldade em português”, “essa professora é muito malvada, eu já percebi logo no primeiro dia de aula”, “ele está com dificuldades em português porque seu amiguinho vai muito melhor em português”, e por aí vai…

Quando a criança já adquiriu a língua e tem meios de expressão, muitas vezes, se nos esvaziamos um pouquinho de nós mesmos, conseguimos criar um espaço para que a criança, ela própria, consiga elaborar o que se passa com ela, contando apenas com nosso suporte. Mas para que isso seja possível, é preciso se deixar levar pela “convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” Esse abandono do lugar de “sabe-tudo” pode ser difícil mas também libertador, na medida em que proporciona a abertura para um espaço de compartilhamento de sentidos, sem o qual a realidade da vida pode ficar muito dura porque desprovida do poder mágico das trocas simbólicas.

Texto publicado originalmente em: http://www.roteirobabycuritiba.com.br/site/realismo-magico/

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