Embora o brincar infantil seja um dos fundamentos do trabalho clínico com crianças, ainda é comum que as pessoas se surpreendam pelo fato de que ele possa ter efeitos e ajudar as crianças na elaboração de seus conflitos e sofrimentos:

“Mas, como assim, você só fica brincando com a criança durante os atendimentos? Como isso pode ajudá-la? Ela brinca todo dia na escola!” Ou ainda, marotamente: “nossa, deve ser bom esse seu trabalho, você recebe só para ficar brincando!”. Questionamentos justos. Mas, ironias à parte, de fato, sem a capacidade de brincar, não há trabalho clínico possível, como bem enfatizou o psicanalista D. Winnicott.

Houve um tempo, no começo dos tratamentos psicanalíticos com crianças, em que o brincar da criança em uma sessão era, de certo modo, traduzido pelo psicólogo. “Ela está brincando de casinha porque isso exprime a relação que a criança tem com os pais”, “esse desenho quer expressar seu sentimento em relação à escola…” Mas a pesquisa clínica com crianças foi caminhando de tal maneira que os psicólogos começaram a perceber que, mais do que o conteúdo da brincadeira, o próprio ato de brincar precisava ser investigado.

Isso porque, e é esse elemento que eu gostaria de destacar, a afirmação de que “toda criança brinca” não é necessariamente verdadeira.

Lembro-me até hoje de um paciente de 5 anos, cujo maior interesse era saber quanto tinham custado os brinquedos da sala de atendimento. Há outras crianças que, de tão ansiosas, não conseguem estruturar uma brincadeira, apesar de tentar iniciar inúmeras vezes. Ou ainda outras, cujo interesse em ganhar ou perder se sobrepõe a qualquer tipo de prazer pelo jogo em si. Ou ainda, crianças que se comportam como “mini-adultos”, imitando o discurso dos pais (essa imitação pode ser uma brincadeira, mas pode também, como nos casos em que estou lembrando, apagar totalmente a espontaneidade infantil). E por aí vai…

O psicanalista inglês D. Winnicott levou o brincar tão a sério que, em pacientes que não podem brincar, o objetivo do tratamento psicanalítico deveria ser justamente o resgate dessa capacidade. Isso porque ele entende o brincar como um ato que está numa área intermediária entre o interno e o externo, entre o que é subjetivo e o que é objetivo. É através da brincadeira que o que sou “eu” e o que é “não eu” se integram, em dimensão paradoxal. Isso, que pode soar um pouco abstrato demais, é extraído da observação das crianças brincando, da forma como elas usam os objetos externos e os transformam de acordo com seus próprios desejos. Não é possível brincar sem ser criativo.

Aos poucos, o brincar se estende para aspectos (aparentemente) mais complexos da vida. O humor no adulto, o prazer no trabalho, a resolução de problemas. Ou seja, do ponto de vista clínico, o brincar pode ter relação com a dificuldade em matemática, com o os problemas com o irmãozinho e até em sintomas psicossomáticos…

A exibição do belo filme Tarja Branca: A Revolução que faltava promovida pelo Roteiro Baby Curitiba, na semana passada, foi uma oportunidade de trazer à tona essa riqueza de sentidos do brincar. No bate-papo com o diretor Cacau Rhoden, tivemos um testemunho do poder efetivamente transformador do brincar e do “efeito cascata” de compartilhamento que ele promove. Mas não só. O filme é também um convite à reflexão sobre a perda de espaço para o brincar na sociedade contemporânea.

A preferência por “ir ao shopping” a “brincar”, para destacar apenas um exemplo, é indício de que uma transformação significativa opera na construção da subjetividade das crianças. Mudanças que sentimos efetivamente na clínica e nos convocam a dar ainda mais atenção à dimensão lúdica do nosso trabalho. Pois o brincar, em sua combinação de leveza e seriedade – a criança quando brinca está inteiramente imersa em sua atividade – é um contraponto à futilidade e ao peso que uma vida guiada apenas pela pressa e pela aquisição de bens, sucesso e resultados, pode acarretar.

Em sua potência criativa e transformadora, o brincar possibilita a alegria de mesclar fantasia e realidade e subverte ao mesmo tempo duas lógicas: a lógica exclusiva do sacrifício (tenho que sofrer e renunciar para que possa conseguir algo de valor na vida) e também a lógica imperativa do consumo (tenho que conseguir objetos e bens de consumo para minha satisfação imediata). Enfim, para além da realização imediata de desejos – “tenho/não tenho”, “me satisfaço/não me satisfaço” o brincar insere a subjetividade em espaço e tempo onde a experiência pode ganhar sentidos compartilhados e ajudar a tornar menos urgentes e dramáticas as dificuldades da vida.

Publicado originalmente em: http://www.roteirobabycuritiba.com.br/site/a-potencia-do-brincar/