Uma roda de crianças agitadas aguarda o início de uma reunião. Um adulto entra na sala e coloca uma ampulheta sobre a mesa. Após alguns instantes, vira a ampulheta de cabeça para baixo e, conforme a areia vai caindo, as crianças vão paulatinamente se acalmando, até que restam apenas poucos ruídos na sala.

Essa é uma das cenas do documentário Françoise Dolto et l´École de la Neuville, que tive o privilégio de assistir semana passada, em evento organizado pela Fédération des Ateliers de Psychanalyse. (http://www.federation-ateliers-psychanalyse.org/). O filme conta a história de uma escola fundada em 1973 e que contou, em vários momentos de sua história, com o apoio de Françoise Dolto, uma talentosa psicanalista francesa que se dispôs a discutir e orientar o trabalho dos educadores – ou dos adultos, como eles preferem ser chamados.

Da valorização do ritmo e do tempo de cada criança, surgiu essa estratégia curiosa: construíram eles próprios, uma ampulheta que, ao medir um tempo de silêncio antes do início de cada reunião, acalma as crianças e as prepara para a discussão.

É um belo documentário, que recomendo a todos que trabalham com o cuidado e educação infantil. Mas por que escolhi trazê-lo para a coluna de hoje? Evidentemente, não se trata da sugestão de espalhar ampulhetas pela casa – essa solução criativa funciona especificamente para a realidade dessa escola – mas apenas um convite à reflexão sobre a importância do silêncio e a espera na relação com as crianças.

Há outra cena no filme que me marcou especialmente. Um menino com grande dificuldade de expressão é convidado a cantar. De início, não sai nada, mas o grupo sustenta a espera, alternando com algumas palavras de incentivo e, vagarosamente, surge uma melodia tímida que cresce e emociona a todos…

Sinto pessoalmente que é muito mais difícil de aceitar e suportar os silêncios e as esperas hoje do que nos tempos de inauguração da École de la Neuville. Tudo é muito mais rápido – basta 30 segundos de demora para abrir uma página de internet e já estamos irritados e sem paciência.

O que tenho em mente é a seguinte construção, que escuto com freqüência no trabalho com crianças: “Eu perguntei para ele (ou para ela) o que está acontecendo, mas ele (ela) não quer me contar.” Sou sempre levada a reconstruir a cena, e me pergunto: Qual foi o ritmo dessa conversa? A expectativa era que a criança desse uma resposta objetiva? A criança teve tempo de fazer todos os floreios e dar todas as voltas que sempre damos quando precisamos tratar de algo importante? Será que foi sustentado um tempo de silêncio entre as perguntas e as respostas?

Na correria do nosso dia-a-dia, muitas vezes esquecemos que conversar demora e implica momentos de vazio e de silêncio, sobretudo quando a conversa é sobre algo que diz respeito a nós próprios. Toda vez que vou para o interior do Paraná, para o campo, não deixo de notar o ritmo lento e compassado das conversas, os longos silêncios sustentados sem constrangimento, algo que definitivamente desapareceu do cotidiano das grandes cidades.

Na clínica com crianças, percebo a necessidade de suportar o tempo de espera e silêncio para que algo seja elaborado. Creio que esse é um dos grandes desafios hoje: sustentar a idéia de que o ritmo, sobretudo no que diz respeito à subjetividade, não é algo que pode ser imposto de fora. Até Freud, que era Freud, foi meio apressadinho em algumas ocasiões e se precipitou ao dizer coisas para os pacientes antes que eles tivessem condições de escutá-las. Pois é, a urgência por respostas é humana, demasiadamente humana.  Mas sempre ganhamos quando conseguimos lembrar que conversar leva tempo e bons minutos de silêncio podem ser muito bem-vindos.

Texto original publicado em: http://www.roteirobabycuritiba.com.br/site/conversar-leva-tempo/