Na coluna do mês passado, falei da importância da mãe poder fazer valer aquilo que sabe e sente, buscando ultrapassar a lógica de culpa e desautorização, que tanto causa sofrimento para mãe, pais, filhos e todos os envolvidos.

Quando escrevi a coluna, o que eu tinha em mente era a relação dos pais, especialmente das mães, em relação a seus filhos, mas – eis a surpresa! – conversando com algumas leitoras, soube que a coluna as fez pensar por outra via: na relação delas, mães, com suas próprias mães, e no quanto, muitas vezes, elas as culpam pelas dificuldades na maternidade. Mais ou menos assim: “Se minha mãe tivesse sido mais compreensiva e amorosa, mais presente e dedicada, então eu poderia ser uma mãe melhor para os meus filhos”. Uma cadeia de culpabilização que atravessa gerações e que acaba por simplificar demasiadamente o que está em jogo na construção da maternidade.

As pesquisas em psicologia e psicanálise caminharam muito ao pesquisar e descobrir a importância dos momentos primordiais da relação mãe-bebê. No entanto, uma leitura um pouco apressada dos resultados dessas pesquisas e sua difusão nos manuais e no discurso cotidiano acaba por superestimar o “poder” das mães. De fato, o que se passa na coreografia primitiva mãe bebê e nos primeiros anos de vida de uma criança é fundamental para sua constituição subjetiva. No entanto, isso não significa que tudo dependa da mãe, por si só, como causa primeira do que ocorre e ocorrerá com o bebê.

Freud, desde o início de seus trabalhos, dizia que todos os fenômenos psíquicos são sobredeterminados. Isso quer dizer que não é possível estabelecer uma causa única para o que acontece conosco do ponto de vista psicológico. Ou seja, uma afirmação do tipo “eu sou assim, porque minha mãe na minha infância me fez X” não é suficiente, do ponto de vista da psicanálise, para dar conta de interpretar nenhum fenômeno. Seja qual for esse X, haverá sempre outros Xs, Ys e Zs que precisam ser investigados.

Em síntese, o que quero dizer é que considero prejudicial e incorreto o excesso de psicologismo que acaba transformando a valorização da relação mãe-bebê na apressada constatação de que, de novo, “é tudo culpa da mãe”. , É demais considerar todas as dificuldades e conquistas da vida fruto da relação da mãe com seu filho. Isso gera, muitas vezes, um ressentimento crônico que desgasta e torna as relações pesadas e angustiantes porque essa mãe ideal, tão procurada, simplesmente não existe.

Anunciei que trataria com mais detalhes da coreografia primitiva mãe-bebê, mas deixo o tema para uma próxima coluna porque, antes de entrar na coreografia em si, preferi levar em conta as opiniões de minhas amigas e leitoras e enfatizar: o que uma mãe pode ser e fazer depende de inúmeros fatores que não estão no seu controle. É como quando vemos um belo espetáculo de dança. Não apenas a performance dos bailarinos está em jogo no resultado final: a iluminação, a localização no palco, o tempo de preparação, o número e a reação da platéia, são elementos importantes para favorecer, ou não, a atmosfera que será criada para que essa coreografia se constitua.

Certamente, todas as danças já dançadas – a história e o desejo materno – estão em jogo ao tornar-se mãe. Certamente, as coreografias mãe e filha se atualizam quando uma filha vira mãe. Mas essa dança pode se tornar prazerosa quando há um relaxamento que torna possível surpreender-se com o que há de novo na maternidade, mesmo no que parece, a princípio, pura repetição. Mas isso já é assunto para uma outra coluna. Até lá!

Publicado originalmente em: http://www.roteirobabycuritiba.com.br/site/e-tudo-culpa-da-mae-segunda-parte/