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Para os avós

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Início de julho. Uma senhora percorre as lojas do centro da cidade sugerindo aos vendedores que divulguem o dia dos avós, uma maneira dos lojistas faturarem e ao mesmo tempo, de aumentar as chances de os avós serem lembrados nesse dia. Fica feliz ao constatar, dias depois, que ao menos uma loja aderiu à proposta, com um discreto cartaz na vitrine. No ano seguinte, antes de ter seu próprio computador e iniciar uma participação ativa nas redes sociais, recomenda: “Escreve lá na internet que ainda dá tempo dos netos parabenizarem os avós pelo dia dos avós”. A postagem foi um sucesso. Por isso, até hoje, fica para mim um mistério sobre as razões pelas quais a publicidade ainda não se apossou e começou a lucrar com esse dia. Será o preconceito contra os idosos ainda mais forte do que a ânsia capitalista?

Mas, como felizmente existe vida para além das campanhas publicitárias, basta nos dedicarmos a escuta de alguém para notar a presença de traços marcantes dos avós na vida dos netos que puderam com eles conviver.

Trata-se tanto dos avós no sentido mais tradicional – aqueles que mimam, “deseducam”, contam histórias… – mas também avós que deixam traços estruturantes na vida de seus netos, fato cada vez mais comum na contemporaneidade. Como as famílias de hoje tem configurações cada vez mais flexíveis (o que, aliás, torna desvinculada da realidade qualquer definição de família como aquela composta unicamente pai, mãe e filhos), é cada vez mais frequente crianças criadas pelos avós, que passam um tempo significativo de sua vida com eles, que os tem como importantes modelos de identificação.

Sinto que, com a pressa e imediatismo que marca o ritmo de nossas vidas,  é como se não houvesse muito tempo nem espaço para a narrativa dessa experiência transgeracional, do que se passa entre as gerações, o que não signifique que, em termos psíquicos,  ela não deixe seus traços e suas marcas. Belas exceções na literatura (como sempre na literatura), o clássico Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, Mia Couto e o delicado Meus desacontecimentos, de Eliane Brum, lançado há dois anos.

Aliás, foi de uma entrevista com Eliane Brum que surgiu o desejo dessa pequena homenagem para os avós. Para os que já se foram, mas que ainda carrego dentro de mim, e para minha vó Odilma, com quem tenho ainda o privilégio de compartilhar a vida. Essa senhora com disposição de ir de loja em loja fazer com que os idosos sejam ouvidos. Uma mulher que sabe se fazer ouvir e a quem devo um bom tanto de minha ousadia de escrever por aí.

Colunas sobre infância e maternidade

Confira aqui as  últimas colunas, artigos e podcasts de Priscila Frehse.


 

Mulheres do mundo, uni-vos!

Apelos pelo fim da guerra entre mães  e sobre os mitos de uma maternidade perfeita circularam especialmente no último mês nas redes sociais (textos publicados originalmente em fevereiro de 2014 – leia aqui e aqui ). Seguindo no tema e, novamente, tentando aliviar a barra das mães culpadas desse mundo afora, resolvi trazer hoje, novamente, um tema abordado pelo psicanalista inglês D. Winnicott.

Com toda sua sensibilidade clínica, Winnicott sabia que poucas coisas irritam mais uma mãe que o excesso de sentimentalismo que envolve o cuidado infantil. E assim ele trata de um tema que me parece especialmente delicado e importante: o ódio que a mãe sente pelo seu bebê. O psicanalista discute com profundidade as questões que envolvem o ódio materno, mas também traz exemplos corriqueiros. Quando por exemplo, a criança recusa a comida tão boa que a mãe preparou e faz com que ela duvide de si mesma, mas com a tia ele come tudo. Ou quando, depois de uma manhã horrível, a mãe sai com o bebê e ele sorri para um estranho, que diz: “Não é uma gracinha?”

Winnicott sabia muito bem que o excesso de sentimentalismo pode encobrir afetos negativos que a mãe não consegue dar conta de sentir e assumir. A “máscara da ternura”, para parafrasear o psicanalista húngaro Sándor Ferenczi, muitas vezes encobre uma lógica de culpa e desautorização, sobre o que já falei um pouco nas colunas anteriores.

Mas, não custa lembrar, poder assumir os próprios afetos negativos não significa se autorizar a colocá-los em prática, atuá-los. Em termos ideais, diz Winnicott, sobretudo no início, “a mãe deve ser capaz de tolerar seu sentimento de ódio contra o bebê sem fazer nada a respeito.” Ela não pode expressá-lo para ele nem ter muito medo da sua própria reação. O problema é que isso só funciona mais ou menos bem, uma parcela de agressividade não elaborada sempre escapa. Mas a capacidade de tolerância ao próprio ódio e aos próprios insucessos aumenta na medida em que é possível falar sobre eles, colocá-los em debate.

É por essa via que leio as discussões dos últimos dias nos “blogs maternos”. Cada mãe, à sua maneira e ao seu estilo, tentando dar conta das ambivalências que implicam essa aventura que é a maternidade. Melhor ainda quando vêm com um pouco de humor, signo de que algo dessa agressividade humana, demasiadamente humana, pode ganhar outros sentidos.

“Mulheres de todo o mundo, uni-vos”! Essa frase adaptada do Manifesto Comunista não me sai da cabeça desde que comecei a escrever a coluna. Talvez pela certeza de que o debate entre mães pode se tornar ainda mais produtivo se reconhecermos nossas precariedades, nossos ódios, nossas inseguranças, nossas rivalidades, mas que, enfim, estamos todas no mesmo barco.

Pois é, somos de uma geração que já não se contenta em repetir passo a passo o que nos foi prescrito. Queremos – e precisamos – nos inventar como mães, como mulheres. Melhor se pudermos fazer isso juntas, falando sem pudores também dos acertos, dos sucessos, do que vai bem. E digo sem pudores porque desde menininhas vamos aprendendo que feminino e maternidade se referem à fragilidade, à passividade, à dificuldade, ao sacrifício, com conotação quase sempre negativa. Freud, com a limitação do linguajar de sua época, faz uma teoria que nos permite perceber o sofrimento imaginário que tudo isso gera. (Aliás, tenho comigo que a psicanálise é uma teoria para dar conta do feminino).  O difícil é que aqui não se trata de nenhum aprendizado, de nenhum resgate de algo que esteja pronto. É algo que precisa ser construído. E, se aprendo algo com a psicanálise até hoje, e nisso Winnicott me ajuda muito, é que não se constrói nada sozinho. Até a próxima!

Texto publicado originalmente em:

http://www.roteirobabycuritiba.com.br/site/todas-no-mesmo-barco/

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